Saúde mental dos servidores públicos exige enfrentar as causas do adoecimento
A saúde mental dos servidores públicos estaduais esteve no centro de evento promovido, em Janeiro, pela Fundação Nhandé Kueri, em parceria com o Sintergs, dentro da programação do Janeiro Branco.
A campanha, realizada nacionalmente no primeiro mês do ano, propõe que Janeiro simbolize uma “folha em branco”, convidando a sociedade a refletir, planejar e priorizar o cuidado com a saúde mental ao longo do ano.
Com o tema “A Saúde Mental sob a Pressão do Arrocho e da Sobrecarga”, a atividade debateu a realidade vivida pelos servidores de nível superior do Estado, marcada pela redução de quadros técnicos, escassez de concursos públicos e acúmulo de funções.
Segundo a 2ª vice-presidente do Sintergs e secretária-geral da Fundação Nhandé Kueri, Priscilla Lunardelli, a lógica do “fazer mais com menos” se consolidou nas repartições, transformando o cotidiano de trabalho em um ambiente permanente de tensão, no qual servidores acabam assumindo atribuições de dois ou três colegas para manter o funcionamento das políticas públicas.
Segundo o Psicólogo aposentado da Polícia Civil e palestrante do evento, Giovanni Piano, salientou o impacto das Funções Gratificadas (FGs) e cargos de chefia sobre a saúde mental.
“Diante de anos de perdas inflacionárias e do empobrecimento das carreiras, muitos servidores passam a ver as FGs não como uma etapa de crescimento profissional, mas como uma necessidade para recompor minimamente a renda”, salientou.
Essa escolha, no entanto, conforme ele, vem acompanhada de sobrecarga, pressões políticas e insegurança, criando um ciclo de dependência que afeta a autonomia técnica e amplia quadros de ansiedade e adoecimento.
“Outro ponto de alerta é o aumento do uso de medicamentos psicotrópicos entre servidores públicos. Relatos sindicais indicam crescimento no consumo de antidepressivos, ansiolíticos e indutores do sono, utilizados como forma de suportar jornadas extenuantes, assédio institucional e falta de perspectivas”, detalhou Pianno.
Para a 2ª vice-presidente do Sintergs e secretária-geral da Fundação Nhandé Kueri, Priscilla Lunardelli, trata-se de um problema coletivo e estrutural, e não de fragilidades individuais. Além disso, para a dirigente, a discussão precisa ir além do discurso.
“Falar de saúde mental no serviço público exige enfrentar as causas do adoecimento. Não adianta responsabilizar o servidor ou oferecer soluções superficiais quando o que existe é arrocho salarial, sobrecarga de trabalho e estruturas sucateadas. A saúde mental também é uma pauta trabalhista”, afirmou.
Ao final do evento, a Presidente do Conselho Deliberativo da Fundação Nhandé Kueri, Rebel Machado, reforçou que “a promoção da saúde mental no serviço público passa, necessariamente, pela valorização salarial, pela realização de concursos públicos e pelo fim do uso das Funções Gratificadas como mecanismo de pressão econômica. Para as entidades, lutar por condições dignas de trabalho é também lutar pelo direito de exercer as funções públicas sem adoecer.”
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