LACEN-RS: 123 anos de ciência a serviço da saúde pública gaúcha

LACEN-RS: 123 anos de ciência a serviço da saúde pública gaúcha

Por 2º Vice-presidente do Sintergs, Priscilla Lunardelli, e Comitê de Servidores do LACEN-RS.

Por mais de um século, o Laboratório Central do Estado do Rio Grande do Sul (LACEN-RS) tem sido um dos pilares invisíveis, porém indispensáveis, da saúde pública gaúcha. Ao completar 123 anos neste 31 de julho, a instituição carrega consigo uma história rica, repleta de avanços científicos, contribuições à vigilância sanitária e, sobretudo, de profissionais que entregam sua vida ao serviço público. O que deveria ser motivo de celebração, porém, escancara uma dura realidade: a negligência histórica do Estado com quem sustenta, todos os dias, o funcionamento dessa engrenagem essencial.

Desde sua fundação, em 1902, o LACEN atua na linha de frente do diagnóstico de doenças, no controle de qualidade de água e alimentos, e no apoio técnico às ações de vigilância epidemiológica. Foi protagonista no enfrentamento de todas as epidemias que assolaram o Rio Grande do Sul desde a varíola, tuberculose, sífilis, gripe espanhola e, mais recentemente, da Covid-19, dengue e leptospirose. Ainda assim, o laboratório e seus servidores seguem invisíveis e invisibilizados na lógica das prioridades governamentais.

Durante a pandemia, a atuação do LACEN foi rápida, eficiente e crucial. Seus profissionais se reinventaram, aprenderam novas técnicas, ampliaram a capacidade de diagnóstico em tempo recorde e com recursos extremamente limitados. Foram reconhecidos como “heróis” pela sociedade, mas ignorados pelo Estado que é o patrão. Não houve nenhuma valorização salarial, investimentos em infraestrutura ou melhorias mínimas, como a readequação da rede elétrica para suportar novos equipamentos. O reconhecimento institucional se resumiu a uma menção honrosa: tímida, simbólica insuficiente.

Esse padrão de desvalorização se repete há anos e diversos Governos. A recente reestruturação de carreiras promovida pelo Governo do RS agravou ainda mais o cenário. Servidores experientes, com décadas de contribuição técnica e dedicação à saúde pública, foram simplesmente deixados de lado. Nenhum plano de valorização, nenhuma compensação por anos de trabalho essencial. Apenas silêncio, invisibilidade e a certeza de que nunca chegarão ao fim da carreira proposta pelo atual governo já que com 25 anos de serviços prestados mal foram reenquadrados na metade da nova carreira aprovada pela Alergs.

Mesmo assim, o LACEN não parou. Diante das enchentes que devastaram o Estado entre 2024 e 2025, foi novamente essencial no enfrentamento de surtos de leptospirose. Implantou, com agilidade, uma inovação técnica diagnóstica que ajudou a salvar vidas. Em meio à epidemia de dengue que assolou o RS no mesmo período, o laboratório foi fundamental para garantir diagnósticos rápidos e confiáveis. E tudo isso foi feito com recursos limitados, estruturas defasadas e servidores desvalorizados.

Os servidores do LACEN continuam firmes por vocação, por ética, por compromisso com a população. Mas isso não pode ser usado como justificativa para o abandono. Valorizar esses profissionais não é um gesto de gentileza, é um ato de responsabilidade. É reconhecer que, sem eles, o sistema de saúde já teria colapsado.

É inaceitável que um laboratório com mais de um século de história, com atuação técnica respeitada nacionalmente, siga sendo tratado como um apêndice político do Estado — sem autonomia real, sem orçamento digno, sem o respeito que merece. A sociedade gaúcha precisa compreender que defender o LACEN é defender o direito à saúde, é proteger vidas, é fortalecer o SUS.

Neste aniversário de 123 anos, não bastam discursos. É hora de políticas públicas concretas. De valorização salarial. De investimentos em infraestrutura. De respeito institucional. O tempo da omissão já passou — e os servidores do LACEN, como tantos outros da saúde pública, já esperaram demais.

Compartilhe:

Verified by ExactMetrics